Ortorexia – Sabemos realmente identificar?

Este artigo foi publicado em colaboração com a nutricionista Julie Saraiva Pais. Formada pela Faculdade de Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, trabalha essencialmente na área clínica e desportiva.

Como profissionais da nutrição é comum contactar com distúrbios alimentares na nossa prática clínica, nomeadamente casos de Anorexia Nervosa, Bulimia Nervosa e Binge Eating.

Numa sociedade tão obcecada com a imagem corporal, quando é que ser desmedidamente “saudável” se torna perigoso ou um problema?

Neste artigo vamos falar sobre o que é a Ortorexia, como a podemos identificar em consulta e como deve ser a abordagem do nutricionista.


O que é a Ortorexia

Na presença de uma preocupação excessiva com a qualidade e pureza dos alimentos podemos também estar perante um distúrbio alimentar denominado Ortorexia Nervosa, do grego “orthós” significa correto e “orexsis” fome.

Este é definido como uma “obsessão por uma alimentação saudável”, procurando consumir apenas alimentos limpos, crus, frescos, orgânicos, sem Organismos Geneticamente Modificados (OGM), evitando elevados teores de gorduras cis e trans, sal ou açúcar, etc…

Esta obsessão leva à exclusão de nutrientes importantes e fundamentais ao bem-estar físico e mental, provocando severas deficiências nutricionais e perda de peso devido à diminuição da variedade nutricional e da ingestão calórica diária. Sem critérios de diagnóstico definidos, torna-se difícil diagnosticar este distúrbio e saber com precisão o número de pessoas que sofre deste problema.

Como identificar se estar preocupado em comer bem é um risco?

Querer ter cuidados acrescidos com a escolha de alimentos saudáveis, menos processados e com métodos de confeção adequados não é sinónimo de ortorexia.

A presença deste distúrbio acarreta necessariamente sofrimento e interfere na qualidade de vida de um indivíduo, uma vez que, este tem dificuldade em integrar eventos sociais que envolvam opções alimentares não controladas, sentindo frequentemente um sentimento de culpa e ansiedade desmesurada.

A não integração destes eventos, como um jantar de amigos, é muito comum, mas em solução, indivíduos com ortorexia optam muitas vezes por levar a própria marmita para poderem ter controlo sob todos os alimentos ingeridos, desde a sua composição, qualidade e confeção. Estudos têm mostrado que muitos dos indivíduos com ortorexia sofrem também de transtorno obsessivo-compulsivo.

Sinais de alerta para estar atento em consulta

  • obsessão na verificação da lista de ingredientes dos alimentos e respetiva composição nutricional;
  • uma preocupação acrescida com o benefício nutricional dos ingredientes presentes;
  • restrição severa a um enorme número de alimentos;
  • incapacidade de comer alimentos que não sejam considerados “saudáveis” ou “puros”;
  • interesse atípico pelo que os outros estão a comer;
  • despender muito tempo do dia a pensar nos alimentos a preparar e métodos de confeção;
  • sinais de angústia e desespero em situações sociais nas quais não estejam disponíveis alimentos “seguros/saudáveis/aprovados”;
  • a preocupação com a imagem corporal pode ou não estar presente;
  • evitar comer fora de casa.

Tratamento e abordagem nutricional

Não existe um tratamento especificamente desenvolvido para a ortorexia, uma vez que carece de critérios de diagnóstico, no entanto, a presença de uma equipa multidisciplinar, composta por um médico psiquiatra e psicólogo, a par com o nutricionista, é fulcral para o tratamento de distúrbios alimentares.

Como nutricionistas deveremos ter como prioridade em consulta aumentar a exposição e a variedade de alimentos suprimidos das escolhas alimentares, assim como a reposição do peso e dos défices nutricionais. O apoio da família é sempre um pilar a valorizar na melhoria do comportamento.

Como nutricionistas é importante que estejamos atentos à presença destes comportamentos em consulta, de forma a poderem ser tratados atempadamente, sem complicações físicas e/ou emocionais para o indivíduo. A partilha de literacia nutricional em combinação com educação alimentar durante a consulta serão ferramentas prioritárias para a adoção de escolhas alimentares saudáveis de forma controlada e informada.


A Ortorexia é um distúrbio alimentar cada vez mais presente na sociedade de hoje em dia. É de extrema importância que o nutricionista esteja preparado para identificar e sinalizar estes casos para que seja feita uma intervenção atempadamente.

Ferramentas como o Nutrium permitem que o nutricionista tenha um contacto mais regular com os seus pacientes, e assim conseguir acompanhar e guiá-los mais facilmente durante este tratamento.

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Bibliografia:

  • Koven, Nancy S., and Alexandra W. Abry. "The clinical basis of orthorexia nervosa: emerging perspectives." Neuropsychiatric disease and treatment 11 (2015): 385.
  • Nevin, Suzanne M., and Lenny R. Vartanian. "The stigma of clean dieting and orthorexia nervosa." Journal of eating disorders 5.1 (2017): 37.
  • https://www.nationaleatingdisorders.org/