Como um nutricionista desportivo se mantém atualizado?

Artigo publicado em parceria com o Nutricionista Filipe Teixeira (3277N).

Desde muito cedo se procurou a vantagem competitiva. Uma breve retrospetiva histórica parece confirmar isso mesmo. Desde os relatos, em 580 AC, de Charmis de Sparta que ingeriria figos secos para melhorar o seu desempenho desportivo, até à recente utilização de doping genético, inúmeras estratégias foram usadas para que o atleta fosse mais rápido, mais forte, em suma melhor que o próximo.

Se hoje achamos descabidos os relatos passados sobre o uso frequente de bebidas alcoólicas (brandy, conhaque, vinho) e até estricnina (veneno para ratos), como estratégias para aumentar o desempenho, tempos houve em que os preponentes destas abordagens eram vistos como vanguardistas.

Por vezes na busca desta tão almejada vantagem, despimo-nos de bom senso e sentido crítico. No entanto compete-nos a nós nutricionistas, no que diz respeito às nossas áreas de actuação, um obrigatório comedimento e sentido crítico em relação à “novidade”. Coloco a palavra entre aspas, porque novidade não é sinónimo de melhoria.

Os nutricionistas não são gadgets: o último modelo, a última novidade não significa que seja necessariamente melhor (mesmo nos gadgets isto é discutível).

A dificuldade prende-se em saber quando mudar de opinião. As pessoas inteligentes mudam de opinião no “momento certo”, no entanto quando é o “momento certo”? Lamento, mas não existe uma resposta fácil para essa pergunta. A linha que separa a inflexibilidade do neofilismo extremo é muito ténue. Nestes dois extremos que se tocam, o cepticismo de mente aberta parece ser a abordagem mais desejável.

Nos próximos parágrafos irei referenciar algumas das minhas linhas de raciocínio. Não é um manual rigoroso de procedimentos, apenas a minha opinião. Gosto sempre de alertar para o facto de não possuir uma hipoteca sobre a verdade.

Como proceder?

O processo de tomada de decisão é, regra geral, um equilíbrio entre a evidência científica disponível, história clínica do cliente e experiência profissional do nutricionista.

  • História clínica: não posso adiantar muito porque é altamente subjectiva. Deixo, no entanto, dois conselhos: oiçam o vosso cliente com atenção e sejam perspicazes; tentem adaptar-se às suas necessidades e dificuldades, tenham sempre presente que a adesão ao plano é fundamental.

  • Experiência profissional: essa tende a ser construída com o tempo. As pessoas verdadeiramente inteligentes aprendem com os erros dos outros. Eu estou sempre disponível para cometer “erros novos” e assim melhorar. Com a experiência, tendemos a perceber onde erramos mais e como evitar repetir esses mesmos erros. Outra questão é trabalhar os pontos fracos. Eu pessoalmente tento equilibrar os meus pontos fracos, mas nunca deixo de tornar os meus pontos fortes, ainda mais fortes.

  • Ciência: esta requer um pouco mais de experiência no que diz respeito a separar “o trigo do joio”. A imagem abaixo representa de forma humorística a hierarquia da evidência científica.

Por mais estranho que nos possa parecer, a pirâmide da direita sobrepõe-se muitas vezes à pirâmide da esquerda. Isto acontece por desconhecimento dos clientes e pela confusão generalizada entre facto científico e ficção científica perpetuada nas redes sociais.

Revisões sistemáticas e meta-análises

Focando-nos na pirâmide da esquerda, parece-nos tentador considerar as revisões sistemáticas/meta-análises (RS/MA) como o gold standard da evidência científica. No entanto, este tipo de trabalhos também possui limitações, tais como: critérios de inclusão usados e a sua sistematização (Cochrane, PRISMA etc.), o tratamento estatístico utilizado, grau de heterogeneidade, avaliação da qualidade dos estudos, viés de selecção etc.

Tudo isto para vos dizer que as RS/MA, sendo trabalhos onde se incluem vários estudos, serão um pouco como uma receita: a sua qualidade depende dos “ingredientes escolhidos” e da forma como são “cozinhados”. Uma RS/MA bem elaborada, permite ter uma visão integrada do corpo da evidência em relação a um determinado assunto, podendo adicionalmente, no caso das MA se quantificar um determinado efeito.

Estudos experimentais controlados e aleatorizados

Em termos de importância seguem-se os RCTs, estudos experimentais controlados e aleatorizados, que também apresentam as suas limitações.

Aqui é fundamental estar atento a critérios de aleatorização, tratamento estatístico, ou seja, às limitações metodológicas em geral. Sentido crítico é também absolutamente fundamental.

Se um determinado estudo apresenta resultados “demasiado bons para ser verdade”, então deveremos ter muito cuidado na sua extrapolação para a prática clínica. Quando um determinado suplemento apresenta ganhos de uma magnitude superior a fármacos, tanto ao nível da massa muscular como na perda de massa gorda, isto sem dúvida requer cautela/apreensão por parte do nutricionista. Sobretudo quando estes resultados não são reproduzidos por outros grupos de investigação.

Um estudo não faz evidência científica da mesma forma que, uma árvore por si só não caracteriza uma floresta. A totalidade do corpo da evidência científica, deve estar na génese do processo de tomada de decisão por parte do profissional.

Publicações de instituições credíveis e investigadores reconhecidos

Torna-se naturalmente mais fácil para quem trabalha na área da investigação, reconhecer os detalhes inerentes à evidência científica. No entanto, muitos colegas mais ligados à prática clínica reportam grandes dificuldades neste âmbito.

O conselho que posso deixar é que sigam as recomendações de algumas instituições credíveis na área da Nutrição Desportiva (IOC, ACSM etc.) e claro das ordens profissionais e instituições governamentais (Ordem dos nutricionistas, Direcção Geral de Saúde, etc.).

Existem nomes que merecem também total confiança a nível internacional (Louise Burke, Stuart Phillips, Asker Jeukendrup, Ronald Maughan, James Morton, John Hawley, etc.) pela qualidade da investigação que têm produzido.

Não vou cometer a inconfidência de nomear colegas em Portugal, até porque correria o risco de injustamente me esquecer de referenciar algum. Vou abrir uma excepção em relação ao Vítor Hugo Teixeira que foi pioneiro nesta área em Portugal. É sem dúvida uma fonte altamente credível e a quem, no meu entender, possuímos uma dívida de gratidão na Nutrição Desportiva.

Conclusão

A abordagem científica é altamente recomendada, no entanto deveremos ter sempre presente que os trabalhos científicos reportam maioritariamente diferenças entre médias de grupo.

Em contexto de consulta, o nosso cliente poderá ser um outlier e como tal nunca nos devemos despir do nosso sentido crítico e poder de observação. Foquem-se no vosso cliente, qualquer mudança de estratégia deverá ter sempre em vista os seus objectivos, segurança e eficácia.

Artigos científicos não ganham medalhas - nunca vi nenhum subir ao pódio em contexto desportivo.

Colegas que estejam menos familiarizados com determinados aspectos da investigação científica, podem e devem seguir as guidelines de certas instituições credíveis na área ou de determinados investigadores que construíram a sua credibilidade a partir de publicações científicas de elevada qualidade. Não quero com isto dizer que devam praticar Nutrição com base na eminência, em detrimento da evidência, longe disso. Poderá ser apenas um “atalho” relativamente seguro.

Esta é a minha visão e interpretação pessoal, não pretendo de todo que seja um tratado de verdades absolutas ou tão pouco um manual de procedimentos.

Filipe J. Teixeira

Artigos recomendados:

https://journals.humankinetics.com/doi/abs/10.1123/ijsnem.2018-0261>
https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/02640414.2011.619349
https://bjsm.bmj.com/content/early/2018/03/13/bjsports-2018-099027
https://www.dietitians.ca/Downloads/Public/noap-position-paper.aspx
https://journals.humankinetics.com/doi/10.1123/ijsnem.2017-0057


Este artigo foi publicado em parceria com o Nutricionista Filipe Teixeira e surge de uma nova iniciativa da Nutrium para promover a partilha de experiência e conhecimento entre os nossos profissionais.

Em nome da equipa, agradecemos ao Nutricionista Filipe Teixeira pelo artigo de partilha.

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